Petrobras: após prejuízo bilionário, ação (PETR4) está cara ou barata?

28/02/2025 às 13:02

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Após prejuízo bilionário, ação da Petrobras (PETR4) está cara ou barata?

Após o prejuízo de R$ 17 bilhões do quarto trimestre de 2024 que pegou analistas e investidores desprevenidos, a Petrobras perdeu R$ 24,5 bilhões em valor de mercado no pregão de ontem. Mas fato é que a petrolífera estatal ainda é a empresa mais valiosa do Brasil. Além disso, está entre as maiores pagadoras de dividendos do país – e uma das maiores do mundo.

Só que, depois dos números sombrios apresentados na noite da última quarta-feira, pulula na cabeça de muitos investidores a dúvida sobre se este é um bom momento para comprar ações da Petrobras.

A verdade é que essa resposta depende da perspectiva e dos objetivos de cada investidor. No setor, após o prejuízo do último período, a ação da Petrobras perdeu o posto que uma vez teve entre as petrolíferas mais baratas do mundo.

É preciso ter em conta que as ações da Petrobras apanharam na bolsa ontem, reverberando a decepção com os resultados. Isso poderia favorecer a visão de que a companhia está “barata”. Mas aí entram alguns pontos que devem ser considerados:

  • Os ativos da companhia vêm se valorizando, o que faz com que ela já não esteja mais tão barata quanto uma vez foi.

Se olharmos um ano para trás, a valorização da preferencial (PN, com preferência por dividendos) foi de 4,35% nos últimos 12 meses e de 44,5% em cinco anos. Já a ordinária (ON, com direito a voto em assembleias) avançou 7% em 12 meses e também 44,5% do começo de 2020 para cá.

O valor ajustado da ação preferencial estava em R$ 37,95 no fechamento de 26 de fevereiro – antes de sair o balanço do último trimestre – estava perto do seu recorde (de R$ 38,50). Esse é o preço do papel ajustado para refletir eventos corporativos que impactam seu valor nominal. Isso acontece porque pagamento de dividendos e juros sobre capital próprio (JCP), desdobramentos e grupamentos são fenômenos que alteram os preços dos papéis.

  • Mas aí vem o segundo ponto a ser avaliado pelo investidor: o contexto de mercado. Acontece que a Petrobras não encareceu sozinha, e sim acompanhando um movimento setorial. Dessa forma, esse quadro ganha novos contornos.

Se considerarmos concorrentes nacionais e globais, a ação preferencial da Petrobras é o oitavo ativo mais barato do setor no mundo. Mas sofreu essa correção por conta da queda do lucro acumulado – já que reportou prejuízo no último período.

A régua é o índice preço sobre lucro (P/L), que mostra a relação entre o preço atual da ação dividido pelo lucro por ação que a empresa possui. Este quociente funciona como uma foto da empresa no mercado financeiro e mostra quanto tempo o investimento no ativo hoje levaria para “se pagar”.

Ou seja, considerando o lucro reportado pela empresa nos últimos 12 meses até ontem, o investimento nesse papel levaria 13,8 anos até se pagar.

Ainda que boa parte do prejuízo da companhia seja de efeito contábil (isto é, afetou os números do balanço, mas não foi efetivado), o P/L saltou de 6,36 após o fechamento do pregão da última quarta, que ainda não incluía as perdas do quarto trimestre, para 13,82 anos atualmente, ou seja, passou a levar mais do que o dobro do tempo de antes para o investidor ter de volta o quanto aplicou nas ações da estatal.

Pelo critério do P/L, o levantamento do Valor Data mostra que a estatal brasileira perde em atratividade para as concorrentes nacionais e para suas pares chinesas e europeias.

Ainda é um patamar bastante descontado. Para nós, é algo que não faz sentidoA Petrobras é uma das melhores empresas do mundo do setor, se olharmos para os custos de produção e margens de lucratividade da exploração e produção de petróleo. É a nossa preferência no setor e ainda seguimos confiantes para os próximos anos”, afirma Malek Zein, analista de ações da Eleven.

Mas esse mundo idealizado da equação financeira só se confirmaria na prática se os resultados da companhia repetissem o padrão do período anterior e se esse lucro sempre se refletisse na valorização da ação ou na distribuição de dividendos.

  • A este ponto, chegamos ao terceiro fator que o investidor deve avaliar: o contexto da companhia.

Na prática, pode ser que o P/L da Petrobras se recupere em termos de atratividade – seja pela recuperação dos lucros, que é bastante provável, seja pela queda do valor de ação, também possível.

Os múltiplos financeiros, muito usados por analistas e gestores para avaliar companhias listadas, são as melhores formas de avaliar se o ativo está em um patamar de preço atraente. Em outras palavras: se está barato ou caro.

Mas preços baixos não tornam algo necessariamente interessante.

Uma avaliação deve ter outras camadas, como as análises qualitativas dos resultados e as perspectivas de especialistas, para entender se uma companhia, mesmo que seja considerada “boa e barata”, atende os interesses do investidor.

Uma questão de fé – na empresa…

Uma questão crucial agora é o quanto o investidor acredita na capacidade da companhia de entregar rentabilidade e se valorizar num horizonte de tempo compatível com a sua estratégia para a bolsa.

Monte Bravo mantém a preferência pela Petrobras no setorembora reconheça que outras empresas, principalmente as juniores (como são chamadas as petrolíferas brasileiras privadas, que têm operações menores) têm potencial de valorização maior. “Porém com um risco de execução também muito maior”, pondera Bruno Benassi, analista de ativos da corretora.

  • Ele acrescenta que o setor de óleo e gás não é uma preferência da Monte Bravo, mas especificamente a Petrobras tem uma capacidade robusta de pagamento de dividendos graças a uma geração de caixa forte, por isso, retorna capital rápido para os seus acionistas.

“E, pelo menos até agora, os investimentos que têm sido feitos são basicamente em exploração e produção de petróleo em campos, que têm um retorno sobre o capital investido muito alto. Agora, se a gestão começar a fazer investimentos em plantas eólicas offshore [produção de energia eólica em plataformas em alto mar] ou em outros segmentos, vamos repensar essa tese. Mas, enquanto 80% a 90% do capital seguir focado em desenvolver exploração de petróleo em águas profundas, a Petrobras é uma excelente empresa”, defende Benassi.

Alexandre Pletes, chefe de renda variável da Faz Capital, também faz ressalvas ao aumento das despesas com investimentos no último trimestre, o que, segundo a Petrobras, está ligado à antecipação das provisões para 2026.

“Vimos no governo PT anterior algumas problemáticas em relação a esses investimentos feitos pela companhia. Então, ainda que tenha sido uma antecipação no Campo de Búzios que traga retorno no futuro, houve investimentos em áreas não estratégicas para a companhia, como em etanol e fertilizantes”, pondera.

Pletes lembra, ainda, que o presidente Lula comentou em um de seus discursos que a Petrobras seria uma das investidoras da nova política naval do governo. “E aí já começa a ter uma certa problemática, porque já se tentou implementar essa política várias vezes e não deu certo. Parece que a companhia pode ser a bola da vez”, acrescenta o chefe de renda variável da Faz Capital.

Mas Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, reflete que, após a queda expressiva de ontem, os papéis da Petrobras estão começando a ficar mais atrativos.

Só que o investidor não pode se basear apenas nesse parâmetro para tomar a decisão de investimento. Para ele é preciso, antes de mais nada, que a pessoa meça o seu nível de aversão ou de apetite ao risco, para então definir se topa entrar nesse barco – que, como se pode ver, balança consideravelmente nesses momentos.

De acordo com dados do Valor PROdos dez analistas que cobrem a companhia, oito recomendavam a compra dos ativos até ontemPoucas casas alteraram as recomendações após o balanço do quarto trimestreE a que o fez (Empiricus) mudou para recomendar compra. A ação preferencial está com potencial de valorização de 35,8% considerada a média de preço das estimativas de analistas para o ativo no fim deste ano.

  • As duas casas que divergiam dessas recomendações, Ativa e Genial, orientam ao investidor adotar posição neutra em relação aos papéis da estatal.

A Genial reporta que a política mais agressiva de investimentos da companhia se torna um ponto mais relevante para os acionistas agora. Para a corretora, dois principais riscos incorrem no aumento de alocação do capital da companhia em refino: a execução e o aumento da capacidade em uma empresa que abertamente não segue a paridade internacional.

Mais uma vez, a questão de alocação de recursos se torna uma questão central para os especialistas. No mais, os principais pontos de pressão sobre a companhia são os de sempre:

  • cotação do petróleo Brent, que afeta a precificação do produto e pode afetar as margens quando a commodity. O fator depende, no entanto, de que a gestão da companhia promova reajustes nos preços conforme a política de paridade internacional;
  • interferência política na esfera da gestão, com a aproximação da corrida eleitoral, a Petrobras pode vir a ser um instrumento para impulsionar a popularidade do governo ou sofrer mais com ruídos políticos; e
  • cenário para a bolsa brasileira, em um ambiente disputado com a renda fixa graças aos juros elevados e perspectivas externas que ainda apontam para um dólar alto.

…e outra questão de dividendos

Pletes, da Faz Capital, diz que pagamento de dividendos anunciado pela Petrobras ficou bem abaixo do esperado “uma rentabilidade em torno de 1,7%, enquanto o esperado era mais próximo de entre 3,2% e 3,5% em dividendos.”

Apesar disso, ainda é um lucro que está sendo distribuído. Boa notícia por um lado, ruim por outro. , Segundo o especialista, o avanço nos investimentos feitos pela Petrobras se torna um problema para o futuro, já que pode comprometer esse tipo de retorno ao acionista.

“Pela gestão desse governo, esse aspecto acende um alerta e preocupa se, em 2025, a Petrobras pode perder a capacidade de repetir o pagamento de fortes dividendos do passado”, conclui Pletes.

Mas a Empiricus está mais confiante. A casa recomendava uma postura neutra em relação às ações da Petrobras porque o papel parecia caro, dados os riscos políticos e a elevação de alocação de capital (investimentos) da empresa.

  • “Mas, depois da nota emitida pela companhia e de o mercado abrir nesta quinta, aproveitamos a queda da ação (que ficou mais barata) para colocar a Petrobras na nossa carteira de ações com foco em dividendos”, conta o analista da casa Ruy Hungria.

A Monte Bravo não vê muita possibilidade de valorização das ações da Petrobras, e sim uma inclinação dos ativos para as perdas no curto prazo, com o petróleo em um preço “de equilíbrio”.

“Os dividendos anunciados pela empresa vieram abaixo do esperado, por isso agora estimamos ‘dividend yield’ [rentabilidade da ação com dividendos] de 15% para 2025. No entanto, precisamos aguardar o resultado do primeiro trimestre deste ano para ter maior visibilidade se teremos a normalização da produção”, comenta o analista.

Ao atual nível de preço, as estimativas da Genial para a rentabilidade do papel preferencial em 2025 é de 18% (considerando algum pagamento extraordinário de dividendos).

Mesmo cautelosa, a corretora reconhece que o patamar é atrativo, considerando que o valor de mercado em relação ao lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) é de 2,7 vezes, indicador abaixo do patamar histórico da Petrobras e de seus pares setoriais.

Matéria publicada no Valor Investe.

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